AUTOESTIMA: O SENSO DIVERSO

Atualizado: Mar 10

POR ISMAEL ALCAM.





Sentir-se em sintonia com o espaço que vivemos é transformador e isso vem sendo provado e comprovado não só pelo comportamento social como pelos logaritmos de aplicativos que ajustam e editam nossa aparência.


Em contrapartida, nos situamos constantemente num debate interno entre o que nos é agradável (e útil) do que nos é imposto; selecionamos as fórmulas mágicas para resolvermos todos os nossos problemas e deixamos de lado as que não nos são interessantes.


Essa “seleção de conveniência” produz resíduos que são, de longe, implantados no senso comum lentamente, construindo uma atmosfera de pessoas que se baseiam unicamente nas soluções que lhes serviram, ignorando os recursos que não corresponderam às suas expectativas e muitas vezes militando em tom de protesto contra tudo aquilo que não lhes é útil.


Marina BF - Casting @projetomodelarts

São as sobras de tudo que não deu certo de acordo com nossas experiências individuais que assombram e colocam em risco nossas relações. Para facilitar nossa compreensão vamos usar uma metáfora bastante simples: o ambiente.


No espaço onde vivemos encontramos contrastes entre o urbano e o verde, em ambos os cenários temos opções e necessidades distintas, como por exemplo colher um fruto para saciar nossa fome numa floresta, ou jogar no lixo a sobra do refrigerante que sua filha não tomou na praça de alimentação de um shopping. Ambas escolhas estão relacionadas com nossas necessidades e satisfações.


Agora imagine que se ao invés de saciar sua fome, o fruto que você colheu lhe deu indigestão e que na situação do shopping você teve sede 5 minutos depois de jogar a lata de refrigerante no lixo… Em ambos os cenários as situações se opuseram e causaram experiências que alimentaram sua conduta, fazendo com que nas próximas oportunidades você se lembre do ocorrido e tome outras medidas e posturas, o que é absolutamente compreensível.


Porém, dependendo da intensidade do ocorrido você pode tomar uma postura ainda mais extrema, alertando outras pessoas a não fazerem as mesmas escolhas que você fez, tendo como base apenas e unicamente SUAS EXPERIÊNCIAS e é aí que começa uma avalanche.



É óbvio que aquilo que me causou um trauma ou desconforto se torne item de atenção e critério para minhas escolhas, porém, quando eu utilizo apenas minhas experiências para criar protocolos de conduta que impõem comportamento e essas regras minimizam o conceito de sentir-se bem do outro ou da outra, eu estou ferindo as demais pessoas à minha volta que podem ter tido experiências diferentes com as mesmas escolhas que abdiquei.


Agora imagine que se em ambos os cenários citados a situação fosse contrária: O fruto saciou sua fome e sua sede, te dando ideia de abrir um negócio e te fazendo ser uma das maiores empresas do setor na sua região. Ou que na situação do shopping center você achou uma grande quantia de dinheiro quando abriu a lixeira para jogar fora o restante do refrigerante…


Levando em consideração que somos diferentes uns dos outros e das outras, é bastante possível que muitas das diversas escolhas que fazemos tomem diferentes desfechos. Essa premissa nos leva a uma importante reflexão: o que é bom para mim é bom para o próximo e para a próxima?

Confesso que levei algum tempo para construir e mais tempo ainda para desconstruir esse paradoxo moral, uma vez que ele aborda um universo tão imenso e complexo como as relações humanas e cheguei na conclusão de uma resposta bastante ambígua: depende.


Pautar uma regra coletiva usando experiências individuais é mais uma imposição do que um protesto e isso vem ficando cada vez mais esclarecido à medida que desenvolvemos nossos debates e nossas lutas. A palavra empatia vem ganhando notoriedade nos últimos anos e nos leva para um lugar de reflexão bastante importante.



Mas qual a relação entre tudo isso e a nossa autoestima? A resposta está nas escolhas e nos caminhos que tomamos para nos satisfazermos e nos sentirmos bem no ambiente que vivemos. O maior exemplo que podemos usar são as intervenções e os procedimentos estéticos.


A indústria cosmética, a medicina e as tecnologias vêm se desenvolvendo numa velocidade astronômica, emanando diferentes desfechos numa sociedade bastante inquieta quando o assunto é a aparência. Nesse oceano de possibilidades temos diversos recursos para manipular tanto nossa aparência física como virtual, nos dando opções para modificar aquilo que antes era imodificável e ressaltar o que era imperceptível.



Mas nem todo mundo é a favor de determinados procedimentos e intervenções estéticas, tendo como respaldo diferentes argumentos e contrapartidas que muitas vezes são plausíveis, porém que podem interferir em histórias que tenham partidas e rumos distintos daqueles que protestam.

Um bom exemplo são as próteses mamárias. A cirurgia plástica mais realizada no mundo preenche uma lacuna que vai desde mulheres que buscam uma aparência dentro dos padrões estabelecidos pela sociedade até situações relacionadas à perda dos seios em diagnósticos de câncer de mama, fazendo com que mulheres possam recuperar sua autoestima através da colocação de uma prótese.



Assim como também muitas pessoas são absolutamente contra o uso de filtros e edições nas selfies compartilhadas a todo instante no Instagram, sobretudo após o movimento #beyourself que possui uma importância gigantesca no debate da pressão estética.


O leque aumenta ainda mais quando trazemos esse tema para a relação com os cabelos, com as proporções físicas e, sobretudo, com a cor da nossa pele se desdobrando em diferentes lugares de fala e de escuta.


É óbvio que abordar uma esfera de dimensões gigantescas como essa se torna uma missão bastante complexa, mas que consegue definir passos mais justos e fiéis às necessidades da nossa sociedade. Estamos processando diariamente todas as mudanças que acontecem minuto a minuto e aprendendo dia após dia a como lidar com elas de maneira que não possam ferir as demais pessoas. É um equilíbrio entre o que é necessário a nós e essencial ao próximo e a próxima, sem diminuir ou deslegitimar nossas convicções e experiências.


Mas isso é realmente possível?

A resposta se assemelha à da primeira questão deste texto:

Depende!


Aliás, esse verbo “depender” pode não ser a chave, mas é a maçaneta para muitas questões pertinentes à nossa evolução como sociedade e como indivíduos, funcionando como uma ferramenta de análise bastante interessante.


Nós dependemos da tecnologia e precisamos que esta não seja uma ameaça para nossa existência e sobrevivência. Ao mesmo tempo, a tecnologia depende de nós, bem como seu sucesso ou fracasso. Nós alimentamos, manipulamos e digerimos as multi informações que emitimos e recebemos todos os dias nas nossas redes sociais e, consequentemente, no nosso dia a dia. Isso mostra que a maneira como agimos e reagimos hoje funciona como um molde para as informações que chegarão amanhã e assim consequentemente.



A maneira como nos comportamos hoje é alicerce para as atitudes de amanhã. Isso não quer dizer que se você não está no seu melhor hoje não conseguirá estar amanhã, muito pelo contrário, levando em consideração que uma construção é realizada de diferentes elementos e experiências não necessariamente agradáveis e extremamente distintas entre cada indivíduo.


O tempo que estamos vivenciando é, sem sombra de dúvidas, um dos mais emblemáticos da era moderna, se tornando um divisor de águas no comportamento humano. O que estamos deixando escrito e o que estamos deixando criptografado no nosso código moral?

Estamos ajustando nosso senso crítico às diferentes vozes que eram silenciadas uma década atrás? Talvez não, ou talvez estejamos interpretando essas vozes como modismo. É o que aponta condutas como a cultura do cancelamento, o linchamento virtual e o discurso de ódio que impregna os comentários nos posts do Facebook.


Uma mulher que entra num procedimento de lipoaspiração para se sentir mais magra não fere a existência nem a luta de uma mulher que descobre e cultua suas curvas, seus cabelos e pelos… ambas estão em diferentes trajetórias mas com o mesmo objetivo de se sentir bem, seja se libertando dos padrões como realizando um sonho de colocar silicone.


Mas também não sou hipócrita em reconhecer que não tenho lugar de fala nessa pauta por ser homem, porém peço a licença de respaldar meu ponto de vista com base nas experiências coletivas ao longo de 8 anos em bastidores de desfiles lidando com modelos e seus familiares, construindo e desconstruindo concepções na busca pelo bem estar e pelo “sentir-se bela e empoderada”.


Talvez estejamos nos primórdios da criação de um novo senso comum, que porventura deveria se chamar senso diverso, plural e subjetivo, tendo como denominador comum o sentir se bem sem roubar a brisa alheia, como se diz na quebrada, que já cultua a certo tempo uma filosofia mais aberta do diverso, customizando e reciclando não só recursos mas também comportamentos.



Na periferia você encontra um ambiente onde é nítido o contraste entre as tendências de estilo e o desprendimento dos padrões estéticos e essa é uma lição (dentre outras) que a favela já fez e entregou antes de outros grupos sociais mais elitistas e tradicionais. E isso tudo é fruto de uma semente plantada principalmente na cultura periférica que há cerca de 30 anos vem pregando em seus raps, grafites e passinhos a liberdade de poder ser quem tu és.


O maior reflexo disso tudo está nos aplicativos que se popularizaram nas camadas sociais mais periféricas. O TikTok, por exemplo, apresenta em seu conteúdo aleatório perfis e publicações de vídeos que expõem não apenas corpos magros e dentro dos padrões considerados como aceitos pela sociedade. Da mesma maneira que os "crossfiteiros" fazem sucesso no YouTube postando seus treinos e dietas para milhões de seguidores todos os dias.


São diferentes portas que têm como objetivo abrir caminhos e não fechá-los. Cabe a nós como cidadãos e cidadãs da era moderna sabermos processar e digerir da melhor forma esse turbilhão de informações que deve ser empregado como agente empoderador de pessoas e não como uma chance de vingarmos nossos traumas, por maiores que tenham sido.


Isso não diminui nossas dores nem deslegitima as causas pelas quais lutamos, apenas permite que outras pessoas possam também se sentirem bem e se identificarem com seus corpos, mesmo que os motivos e caminhos que as movem sejam diferentes dos nossos.





KEYWORDS:

#sensocrítico #promoverreflexão #lugardefala #lugardeescuta #sensocomum