Um bate papo com Odara Soares: A 1ª mulher trans embaixadora social na RMS.

https://www.instagram.com/realodara

Odara Soares é conhecida nacionalmente pelo seu trabalho frente à luta pelos direitos humanos, sobretudo nas causas LGBTQIA+

Dona de uma personalidade singular e em prol da pluralidade e inserção de gênero na sociedade, Odara Soares vem sendo um nome bastante evidenciado no cenário influencer, debatendo com bastante lucidez, sensatez e inteligência assuntos que promovem a inclusão não só do corpo, mas do ser humano trans no contexto social com publicações provocativas e que nos levam para uma reflexão sobre justiça, igualdade e amor nos tempos de hoje.


Conversamos com a influencer que, às vésperas de ser nomeada embaixadora do Projeto ModelArts, nos contou um pouco sobre sua trajetória, suas conquistas e lutas que a levaram a um importante lugar de fala não só nas redes sociais, mas na vida.


Odara, você traz no seu conteúdo bastante discussões que são baseadas entre fatos verídicos que estampam nossos noticiários até esquetes de diferentes tipos de entretenimento, mas na maioria dessas publicações é notável um tom educativo, no sentido de orientar as pessoas a terem comportamentos mais justos, principalmente com a sociedade LGBTQIA+. Você acredita que atualmente as pessoas estão mais dispostas a ouvirem as vozes (antes silenciadas) da comunidade LGBTQIA+?


Acredito que as pessoas estão percebendo que negligenciar o outro, por qual motivo seja este, diz mais sobre elas mesmas do que sobre o outro de fato, mas ainda estamos bem longe do ideal para obtermos uma vida comum e igualitária para as "minorias" com direitos e acessos básicos assegurados para todos.


Ser preconceituoso ilustra a não evolução individual no sentido espiritual e social de um povo e acho que por mais sombrios que sejam os tempos que atravessamos atualmente as pessoas vêm percebendo isso com mais clareza.


Colocar o dedo na ferida (com cautela, porém depende...) e insistir em falar sobre, desenvolvendo diferentes maneiras de acessar as pessoas, é uma responsabilidade social muito grande, porém urgente, convidando ao questionamento público.




Você tem ou já teve dificuldade de ser levada a sério no sentido de vivermos numa sociedade onde mulheres trans são constantemente associadas à imagem e à sensualidade ? Ainda existe esse rótulo entre imagem e intelecto na sua opinião e como ele é tratado dentro da sociedade LGBTQIA+?


A mulher num contexto geral (não só as trans) teve o seu papel construído pelo patriarcado de forma hipersexualizada e subserviente, ou seja, por muito tempo foi perpetuado (e infelizmente é até hoje) a ideia de que a mulher existe para servir o homem, social e sexualmente.


Para nós mulheres trans é pelo menos duas vezes mais difícil, tendo em vista que nem como mulheres somos respeitadas, automaticamente colocadas no lugar de "coisa", no lugar do corpo "menos importante", no lugar de corpo "não merecedor de respeito, afeto ou até mesmo de direitos e acessos básicos", e nas raras vezes que sim, é

para executar o papel de subserviência.


Essa é uma das estratégias do CIS, tema de desumanização de nossos corpos, justamente para silenciar nossas vozes e nos manter fora dos espaços de poder.


Dentro da comunidade LGBTQIA+ não é diferente...homens gays ainda dominam os espaços de poder e privilégio (porque ainda são homens), carregam o peso da homofobia em suas vivências mas infelizmente isso não os isentam de reproduzir racismo, machismo, transfobia, misoginia e afins.


Para ilustrar um pouco o cenário de desigualdade no meio LGBTQIA+ vamos imaginar um Shopping Center, quantos homens gays você conhece que trabalha em algum? Agora quantas mulheres trans você conhece que trabalham no mesmo espaço? percebe? Se você que fez essa conta for honesto, percebe que a porcentagem é desleal, no mínimo desumana.


As pessoas no geral (incluindo LGBT’s) precisam parar de romantizar ou achar normal/legal mulheres trans e travestis nas esquinas se prostituindo, porque isso foi socialmente imposto. Enquanto as pessoas não começarem a nos dar oportunidades e entenderem que somos tão humanas e tão dignas quanto qualquer outro ser humano, que merecemos oportunidades, dignidade e respeito como qualquer outra pessoa, isso vai continuar sendo perpetuado e isso é sim, direta ou indiretamente responsabilidade de todos. Não basta não ser transfóbico, é preciso ser anti-transfobia.



Odara Soares debate em seus posts temas como o preconceito e o empoderamento das massas, engajando milhares de pessoas na internet.


O lugar de fala trans vem sendo bem utilizado na sua opinião?


Acredito que em sua maioria sempre tenha sido. Afinal, não é de hoje que estamos falando (leia-se gritando) sobre coisas sérias, pedindo socorro e atenção para nossa situação social. Mas ainda falta muita movimentação e oportunidade...nosso local seria muito melhor aproveitado se tivéssemos mais pessoas aliadas à causa e assim que se aliassem, se movimentassem de fato, para conquistar espaços e consequentemente credibilidade social.


É importante que as pessoas saibam que direitos de pessoas trans são direitos humanos e que não precisa ser trans para lutar contra a transfobia. Ainda falando sobre aproveitar o lugar de fala: muitas apelam à usar a própria existência como chacota, reforçando centenas de estereótipos e essas têm mais facilidade de hitar pois no imaginário do senso comum é pra isso que servimos, pra caricatice, para fazer a cisgeneridade rir e usar nossos corpos como piada de forma depreciativa e vexatória. As pessoas têm medo de pessoas trans criando conteúdo e conhecimento, pois isso prova a elas por A + B que somos tão dignas e capazes quanto elas, mesmo com todas as adversidades.



Na luta pela igualdade já conseguimos bastante feitos mas sabemos que ainda falta muito para desenvolvermos uma sociedade mais justa e humana. Na sua experiência, o que você sentiu na pele que mudou pra melhor e o que, na sua opinião, precisa ser melhorado pra ontem?


Senti na pele que corpos como o meu, estão sendo notados para além dos lugares do imaginário comum. Hoje temos pessoas LGBTQIA+ em quase todos os espaços, contamos com cada vez mais diversas formas de representatividade e esse é o caminho: resistir, ocupar, ressignificar.


Percebo que não somos poucas(os) e que estamos literalmente em TODOS os lugares e só não vê quem não quer. Nos nomearam como minoria para nos fazer acreditar que somos poucos, mas não somos!


O que precisa ser melhorado pra ontem, é a desunião e a competitividade tóxica no nosso meio, isso é fruto do machismo e degladiando-nos só ficaremos cada vez mais longe do pódio. A comunidade LGTBQIA+ precisa urgentemente pegar toda essa energia gasta com essa competitividade besta e direcionar para o senso de coletividade, unificação, força e poder. Entender, respeitar e se enxergar quando notificar uma corpa LGBTQIA+ nos espaços (seja ele qual for).


Tivemos sim alguns avanços, mas não podemos nos dar o luxo de viver como se estivesse tudo bem, ainda estamos sendo mortas e violentadas à luz do sol. É importante não se esquecer disso.



Você movimenta milhares de seguidores nas redes sociais, tem uma carreira que flerta com a moda e a mídia, debate assuntos polêmicos com bastante sobriedade e tudo isso numa região interiorana que possui uma população de comportamento político bastante polarizado. Como influenciadora de muitos jovens que lutam por uma existência, como você reage nessa “responsa”?



Acho importante me colocar nesse lugar de ser pensante e responsável (e na minha concepção todo mundo deveria!), tanto que na minha bio diz: "do útil ao fútil, sem ser inútil" porque é isso que eu sou, acredito que precisamos influenciar as pessoas à refletirem, pensarem além e se questionarem sobre a realidade

que lhes cerceiam.


As superficialidades da vida são prazerosas, mas acho que a vida é um presente muito rico para ser resumida de maneira rasa e superficial. A ideia de influenciadores que influenciam as pessoas a viverem no automático, valorizando "o que têm preço, mas não têm valor" não me agrada, daria pra fazer os dois.


Então, por pior que possa vir a ser nosso cenário, é preciso olhar para a realidade como ela é para que então haja alguma mudança social-histórica positiva no amanhã. Por isso faço revolução, mas não esqueço minha bolsa da Louis Vuitton.


Minha vida pessoal é o meu lifestyle e o meu lifestyle é o meu trabalho e com o meu trabalho procuro fazer mais do que apenas existir. Nunca gostei de ser apenas mais uma na multidão, sou uma boneca fora da caixa (risos).

Odara também faz parcerias com marcas e organizações engajadas na inclusão e no respeito. "Acho importante ajudar quem promove o bem" diz a jovem que vêm dobrando o número de seguidores.


Pra mim tanta dor e sofrimento que me atravessaram durante a vida precisava servir pra algo positivo nesse plano que estamos. É preciso se entender, se perceber, despertar e convidá-las a pensar. Tocá-las de alguma maneira é uma responsabilidade social que pra mim, sabendo da história do nosso movimento, não é mais que minha obrigação, é um trabalho ancestral.



Vivemos na era da Cultura do Cancelamento. Como você enxerga esse comportamento e como você acredita que conseguiremos estabelecer uma cultura virtual mais justa ou menos cruel ?



Essa cultura é deprimente, engraçada, e no mínimo “hipócrita”. Só as pessoas canceladas querendo cancelar as outras, só as “capim do campo” que nascem sem serem semeadas online (risos).


Brincadeiras a parte, eu acho que precisamos entender que todo mundo erra, que ninguém sabe tudo e nem nasceu sabendo, que está tudo bem desde que a pessoa esteja DISPOSTA a reconhecer seus erros, revê-los, e aprender sobre o que não sabe. A vida é sobre isso!


As pessoas precisam ler mais livros em geral (principalmente de história!), precisam ouvir mais as realidades diferentes das suas e entender que não existe ser humano 100% desconstruído.


A diferença está no que você faz a partir do momento que você erra e que você é sinalizado do seu erro, você aceita? Entende? Procura mudar? Ou você bate o pé feito uma criança birrenta e fica tentando se justificar? Eu erro, você erra e tá tudo bem. Errar é humano, mas persistir no erro é negligência social e burrice.



Confira o conteúdo da influencer nas suas redes sociais oficiais:


Twitter: https://twitter.com/Odarasoares

Instagram: https://www.instagram.com/realodara

Facebook: https://www.facebook.com/odarasincera



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